sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

József Attila

DESESPERANÇADAMENTE

O homem afinal alcança
Triste, plana, úmida areia,
Olha em torno pensativo e,
Prudente, só assente, nada espera.

Eu também tento olhar em torno
Assim, levemente, sem enganos.
Prateado sussurro de foice
Brinca entre as folhas dos álamos.

No galho do nada pousa meu coração,
Pequeno corpo mudo treme,
Cercando-lhe estrelas se chegam
E assistem, assistem mansamente.

*

LEVANTA-SE AO AMANHECER COMO OS PADEIROS

A minha amada possui a cintura esbelta e firme.
Já estive num avião e de cima ela parece mais pequena
mas ainda que eu fosse piloto assim me agradaria.

Ela própria lava a roupa, a espuma sonha e treme nos seus braços,
ajoelha-se como se rezasse, esfrega o chão
e, ao acabar, ri alegremente.
O seu riso é uma maçã cuja casca morde com estrépito
e também a maçã ri, então, às gargalhadas.
Quando amassa o pão levanta-se ao amanhecer
como os padeiros, parentes dos fornos de pão suave
que vigiam com as suas longas pás.
A farinha, ao derramar-se, voa até aos seus peitos livres
onde fica a dormir tranquilamente,
tal como a minha amada no leito perfumado,
depois de esfregar
e de abraçar, até limpar completamente, o meu coração.

A minha esposa será como ela se eu crescer e amadurecer como um homem
e casar-me-ei como o meu pai.

*

DIZEM

Quando nasci tinha uma faca na mão.
Dizem: é poesia.
Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca.
Nasci para ser homem.

Alguém soluça uma felicidade apaixonada.
Dizem: é amor.
Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas!
Só contigo eu brinco.

Não recordo nada e também nada esqueço.
Dizem: como é possível?
O que deixo cair mantém-se sobre a terra.
Se o não encontro, tu o encontrarás.

A terra me aprisiona, o mar me dilacera.
Dizem: um dia morrerás.
Mas dizem-se tantas coisas a um homem
que nem sequer respondo.

*

AÍ ESTÁ O SALDO FINAL

Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já está aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.

*

TALVEZ EU SUMA DE REPENTE

Talvez eu suma de repente,
feito rastro de bicho na floresta.
Dilapidei completamente
tudo de que devia prestar conta.

Já o meu corpo-menino em botão
vi murchar num fumo que cegava.
Aflição estilhaça-me a razão
quando reparo a que hei chegado.

Cedo cravou em mim seu dente
o desejo, profundos enganos.
Hoje tremo de arrependimento:
quisera ter esperado mais dez anos.

De teima sempre recusei
sentido à palavra materna.
Depois órfão e enteado passei
à galhofa das coisas de escola.

Minha juventude, viço verde
pensei ser eterna liberdade,
e hoje só escuto entre lágrimas
o estalar de galhos secos.

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