segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Boris Pasternak

Aurora

Estavas por inteiro em meu destino.
Depois veio com a guerra o malefício,
e mais de ti não soube, oh desengano!,
sequer uma palavra, uma notícia.

Passou-se muito tempo, mas agora
a tua voz abriu minha ferida.
Leio tua palavra noite afora,
e venho de um desmaio para a vida.

Quero buscar no vigor matutino
a multidão: com ela confundir-me.
Estou pronto a disseminar ruínas,
pôr de joelhos a todos, inermes.

Eu desço apressadamente as escadas
e vejo ao meu redor ruas abertas,
e tanta neve cobrindo as calçadas,
como a primeira vez, nuas, desertas.

Se muitos bebem chá em salas claras,
outros seguem os bondes, apressados.
Dentro de alguns minutos, sem demora,
mal se conhece o rosto da cidade.

E tece o vento norte nos portais
uma teia de flocos condensada.
E, para não chegar tarde demais,
muitos deixam o chá pela metade.

Tamanho sofrimento me comove,
como se tanta dor em mim coubera,
pois também me dissolvo como a neve
e movo as sobrancelhas com a aurora.

Gente sem nome está junto de mim,
são árvores, meninos, sedentários.
Sou vencido por todos, pois assim
me reconheço pronto na vitória.

tradução de Marco Lucchesi

*

O Dom da Poesia (fragmento)

Deixa a palavra escorregar,
Como um jardim o âmbar e a cidra,
Magnânimo e distraído,
Devagar, devagar, devagar.

tradução de Augusto de Campos.

*

Definição de Poesia

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. C´]eu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

tradução de Haroldo de Campos

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